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Abril 2026
Já repararam que, de norte a sul, os parques infantis que existem em Portugal parecem ter saído todos da mesma fotocopiadora? Estruturas de plástico de cores berrantes, metros quadrados de borracha que fervem ao sol e gradeamentos, demasiados gradeamentos.
Enquanto Portugal continua refém de um modelo de parques infantis estéreis e entediantes, outros países, com bons exemplos na Europa, como a Dinamarca, a Suécia e a Alemanha, já perceberam, há décadas, que o "risco" controlado e o contacto com o meio natural são os melhores professores de uma criança. Lá, os parques infantis são extensões da floresta ou do jardim: têm desníveis, troncos, água, pedras e vegetação.
Porque é que por cá teimamos em ignorar esta tendência? Porque é que continuamos a negligenciar o bem-estar das crianças?
Os espaços de jogo vivem presos a uma interpretação rígida das normas de segurança. O receio de falhar na conformidade empurrou municípios e fabricantes para soluções em que o produto já vem "standardizado e certificado". Ou seja, não se correm riscos, mesmo que não cumpra o propósito.
O resultado? Um absurdo. Ao lado de um parque convencional, temos frequentemente árvores, muros de pedra e outras estruturas onde as crianças brincam livremente, sem selos de garantia, desafiando a sua própria agilidade. A obsessão pela segurança está a matar a oportunidade das crianças aprenderem e descobrirem que é vital para a sua autonomia, confiança e crescimento.
Um parque convencional é um lugar onde se "consome" brincadeira. Um parque naturalizado é um lugar onde se "cria" a brincadeira.
Num parque naturalizado, a terra, os paus e as pedras são ferramentas de imaginação que o plástico nunca substituirá. A vegetação ensina as estações do ano e cria sombra real. Os materiais locais dão identidade. Estes espaços combatem o sedentarismo e o "défice de natureza", estimulando uma destreza motora que, infelizmente, hoje está em queda livre na sociedade.
Felizmente, há quem ouse romper o sistema; há alguns (poucos) bons exemplos por aí. O parque infantil da aldeia de Touro (Vila Nova de Paiva), idealizado e projetado pela NBLIVING, é um desses casos que mostram que se pode fazer diferente.
Em vez de vedações e plástico, este parque utiliza madeira, brita, areia e vegetação, integrando-se no espaço verde circundante. Sem barreiras, o parque convida as crianças a explorar a envolvente: a subirem às árvores, a criarem esconderijos e a sentirem-se confiantes fora da “redoma”. O projeto pensou no desenvolvimento das crianças, mas também no conforto dos adultos, criando um espaço de convivência, importante para combater a literacia ambiental e diferentes gerações conviverem.
Um parque não é apenas um lugar para "gastar energias", pode também ser um espaço de conexão com a natureza e com os outros.
Talvez falte atenção e coragem política e técnica para exigir projetos que respeitem a inteligência das nossas crianças e ponham o seu bem-estar à frente do resto. Projetos que lembrem que negligenciar a qualidade dos espaços de recreio é negligenciar a educação e a saúde pública.
O próximo passo é deixarmos de projetar recorrendo a catálogos e passarmos a olhar para as verdadeiras necessidades e interesses das pessoas. Para que isso seja possível, é necessário abandonar as soluções fáceis e começar a usar mais o bom senso.