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Agosto 2026
A atividade de construção mantém uma relação profunda e, muitas vezes, contraditória com o capital natural. Por um lado, depende diretamente de recursos como água, solo, madeira, minerais e energia; por outro, transforma de forma significativa os territórios onde intervém. Edifícios, infraestruturas e cidades são essenciais ao desenvolvimento económico e à qualidade de vida, mas a sua construção e operação podem exercer uma pressão considerável sobre os ecossistemas. Gerir esta relação de forma sustentável implica, por isso, deixar de olhar para a natureza apenas como fonte de recursos e reconhecer o capital natural como um ativo fundamental para a criação de valor no longo prazo.
Os impactos negativos são conhecidos: ocupação e impermeabilização dos solos, alteração de habitats e paisagens, perda de biodiversidade, consumo de água e matérias-primas, produção de resíduos, emissões de gases com efeito de estufa e perturbação dos ciclos naturais. A extração de areia, pedra, metais e outros materiais exerce pressão sobre os ecossistemas, enquanto a expansão urbana pode fragmentar habitats e reduzir serviços dos ecossistemas, como a regulação hídrica ou o sequestro de carbono. A estes impactos somam-se riscos crescentes para as próprias empresas: escassez e aumento do custo dos recursos, alterações climáticas, fenómenos extremos, maior exigência regulatória, perda de licença social para operar e riscos reputacionais e financeiros associados à degradação da natureza.
Mas a relação entre construção e capital natural não é necessariamente negativa. Existe uma oportunidade para transformar o setor num agente de valorização e recuperação dos territórios. Por exemplo, a utilização responsável de madeira proveniente de florestas geridas de forma sustentável, a redução do consumo de matérias-primas virgens, a reutilização e reciclagem de materiais, a eficiência hídrica e energética e a incorporação de soluções baseadas na natureza podem reduzir significativamente a pressão sobre os ecossistemas. A conceção de edifícios e infraestruturas que preservem solos, promovam biodiversidade, reduzam o escoamento superficial ou contribuam para a adaptação climática demonstra que o ambiente construído pode também gerar benefícios ambientais.
Esta mudança exige igualmente uma nova forma de avaliar os projetos. Não basta medir apenas custos, prazos, emissões ou eficiência energética. É necessário compreender a dependência dos projetos relativamente à natureza, avaliar os impactos sobre o capital natural e integrar esses fatores nas decisões de investimento e desenho. A construção pode, assim, passar de uma lógica predominantemente extrativa para uma lógica de circularidade e valorização dos recursos, procurando criar valor económico sem destruir as bases ecológicas que sustentam esse mesmo valor.
É, contudo, importante ir mais longe. A sustentabilidade procura, em grande medida, reduzir os impactos negativos e garantir que não comprometemos o futuro. Mas perante a dimensão dos desafios ambientais e sociais, reduzir o dano já não é suficiente. Precisamos passar da sustentabilidade para a regeneração: não apenas fazer "menos mal", mas procurar deixar os territórios em melhores condições do que aquelas em que os encontramos.
É esta mudança de paradigma que está no centro da economia regenerativa: compreender os sistemas como vivos, interdependentes e capazes de se renovar, e orientar a atividade económica para reforçar essa capacidade. Para o setor da construção, isto significa conceber e executar projetos que regenerem solos, restaurem biodiversidade, recuperem ecossistemas, valorizem comunidades e criem prosperidade duradoura.
O futuro da construção não deverá ser apenas construir com menor impacto. Deverá ser construir para regenerar. Regenerar a natureza, os lugares e as comunidades, reconhecendo que o verdadeiro valor de uma obra não está apenas no que constrói, mas também naquilo que deixa como legado.