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Fevereiro 2026
Durante décadas, o progresso urbano foi sinónimo de cimento e alcatrão. Nas cidades, mas também nas vilas e aldeias, se bem que a outra escala. Criou-se uma "crosta" artificial sobre o solo, ignorando o ciclo natural da água e da terra. Em boa verdade, ignorámos tudo, até o nosso bem-estar.
Apesar de continuarmos a pagar um preço elevado por essas decisões, aparentemente nada nos demove de continuar a espalhar carpetes asfaltadas por todo o lado, garantindo a nossa “comodidade”. Mas uma das perguntas que se pode fazer é: Será assim tão cómodo viver nestas condições que criámos?
Podemos assumir que a impermeabilização excessiva dos meios urbanos é um catalisador de crises ambientais e estruturais, e um dos primeiros sinais de alarme chega com a chuva. Sem solo poroso para se infiltrar, a água acumula-se nas superfícies, sobrecarregando os sistemas de drenagem e resultando em inundações e cheias rápidas. Mas o problema persiste mesmo quando não chove e o sol brilha, pois o alcatrão absorve a radiação solar, criando ilhas de calor que tornam o ambiente urbano sufocante. Com chuva é chato, com sol é chato, em que ficamos?
No subsolo, o cenário não é melhor, pois este é impedido de se reabastecer de água, criando desequilíbrio nas taxas de humidade, que afeta a vegetação e cria outros tipos de riscos estruturais, como a erosão, os abatimentos de terras, as fissuras em edifícios e a queda de árvores.
Os impactos na biodiversidade urbana são enormes e evidentes: onde há betão, não há habitats.
O custo desta “paisagem cinzenta” transcende a esfera ambiental, afeta profundamente o tecido social,ou seja, afeta as pessoas e não contribui para a nossa qualidade de vida, apesar de ignorarmos ou nem nos apercebermos. As duas opções são assustadoras.
Ao desenharmos cidades à medida dos automóveis, esquecemo-nos da escala humana. Esta inversão de prioridades confiscou-nos o espaço público, transformando o que deveria ser um palco de convivência e encontro em meros corredores de tráfego e stress. O impacto na saúde mental e no sentido de pertença é devastador, atingindo desproporcionalmente os mais vulneráveis: roubamos às crianças a autonomia, a liberdade e o direito de brincar na rua, e condenamos os idosos ao isolamento e à solidão.
É neste cenário de urgência que o conceito de Livable Streets ("ruas com vida") ganha força e se materializa. Trata-se de uma mudança profunda, que consiste em: devolver a rua às pessoas, transformando o que antes eram apenas corredores de tráfego em espaços seguros, caminháveis e de encontro.
Esta revolução urbana já é visível em Barcelona, onde o projeto dos Superblocks converteu cruzamentos rodoviários em praças de convívio. Ou em Pontevedra, em Espanha, que baniu os carros do centro da cidade para dar prioridade total aos peões.
A proteção dos mais vulneráveis, como crianças e idosos, também está presente nestas mudanças, como vemos nas Rues aux Écoles em Paris, que substituíram o alcatrão por vegetação e segurança à porta das escolas.
Numa escala ainda mais ambiciosa, o projeto Cheonggyecheon, em Seul, provou o impensável: demoliu uma autoestrada para "destapar" um rio antigo, reduzindo a temperatura local e trazendo a natureza de volta ao coração da cidade.
Os erros urbanísticos do passado não são sentenças definitivas. Pelo contrário, são desafios reversíveis. Com a necessária coragem política e uma estratégia de longo prazo, temos enquanto sociedade o poder de repensar as nossas cidades, vilas e aldeias, para que possam responder melhor às nossas necessidades.
O caminho passa inevitavelmente pela implementação de nature-based solutions (soluções de base natural), removendo betão e transformando ambientes artificiais e desumanizados em ecossistemas vivos, nos quais precisamos de nos reintegrar e de reaprender a viver.
Investir na renaturalização das cidades é investir no nosso próprio equilíbrio físico e psicológico, é investir na nossa segurança, é investir no futuro.