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Junho 2026
No setor imobiliário e da construção, a sustentabilidade ambiental tem vindo a ser um eufemismo para a simples mitigação de impactos, em que se pretende apenas reduzir o dano, impermeabilizar com contenção ou instalar pequenos retalhos verdes para apaziguar a regulação e o peso na consciência. É, no fundo, a filosofia do “menos mal”. Mas o declínio ecológico não se resolve com “menos mal”, resolve-se com mais vida.
É por isso que o Biodiversity Net Gain (BNG) — ganho líquido de biodiversidade em português — não deve ser visto como mais uma métrica de conformidade, mas sim como uma ferramenta que nos incentiva a desenhar para a abundância.
Colocando de parte os formalismos técnicos, o BNG constitui um pacto fundamental: ao intervirmos num território, assumimos o dever de promover o seu potencial.
A neutralidade não é suficiente: se um território detinha um determinado valor ecológico antes da intervenção, ainda que se tratasse de um baldio, a intervenção deve assegurar um incremento mínimo de 10% do valor da biodiversidade face ao seu estado original.
Trata-se de “aritmética regenerativa": uma métrica que vai além da mitigação e passa a considerar a integridade, a distinção e a capacidade de resiliência de cada novo habitat que ousamos projetar.
A utilidade do BNG reside no facto de proporcionar uma mudança na abordagem ao projeto. Normalmente, ecologistas e arquitetos paisagistas são consultados quando o edifício já está desenhado, restando-lhes uma tarefa ingrata de "decorar" as sobras de espaço. O BNG ajuda a inverter o processo:
A ecologia como “co-autor”. As características naturais e do espaço influenciam a forma e o desenho do edificado: o edifício adapta-se à vida, e não o contrário.
Da estética à função. Transita-se de jardins estéreis e de espécies exóticas, que funcionam como desertos biológicos, para espaços vivos, dinâmicos e funcionais.
Ativos com futuro. Transforma o que se degrada em evolução: ao contrário das estruturas inertes que apenas se degradam (por exemplo, edifícios de betão), um ativo regenerativo vê o seu ecossistema ganhar maturidade, valorizando-se à medida que a vida se consolida (por exemplo, um espaço verde que tem liberdade para se desenvolver com o tempo valoriza o valor do ativo como um todo).
Existe uma clara tendência de fragmentar o mundo natural em métricas isoladas: medimos quantos quilos de carbono uma árvore absorve ou quantos litros de água uma cobertura verde retém. É uma abordagem utilitária, mas incompleta: podemos estar a criar "monoculturas funcionais" (p.e. coberturas verdes compostas por uma única espécie vegetal que retém água, mas que não promove polinização local).
O grande potencial do BNG é a sua abordagem sistémica, ou seja, a unidade de reflexão concentra-se nos “habitats” existentes e a ser criados ou transformados (os tais sistemas ecológicos), essencial para trabalhos de projeto e planeamento. O BNG, juntamente com uma especialização na quantificação de sistemas de ecossistemas providenciados (carbono, água, sombra, ar puro, regulação térmica, etc.) permite obter uma visão completa e integrada.
Se “plantarmos” o habitat certo, com a complexidade certa, os serviços de ecossistemas vêm por acréscimo. O carbono é sequestrado, a água é retida, a temperatura é regulada, o ar é purificado. A biodiversidade não é um serviço que a natureza nos presta; é a infraestrutura viva que permite que tudo o resto funcione.
Sendo ainda uma ferramenta metodológica relativamente recente, foi com muito agrado que abraçámos a oportunidade de sermos pioneiros na implementação de um trabalho desta natureza em Portugal.
Trazer esta filosofia para uma cidade densa como Lisboa é um verdadeiro desafio. No projeto FLOW, no Parque das Nações, decidimos aplicar esta visão em parceria com a promotora Atenor.
O ponto de partida era um lote urbano industrial, num tecido urbano onde o betão e o asfalto dominam. A tentação seria desenhar um edifício com sobras de espaços verdes para “ficar bem na fotografia”.
Contudo, o promotor e a equipa responsável pelo projeto tiveram em consideração a necessidade de reservar espaço de qualidade para que, tanto os beneficiários do edifício como a fauna e flora, pudessem conviver num espaço onde o bem-estar é o objetivo principal.
Assim, este projeto promoveu uma estrutura verde funcional: cada escolha assumida e desenho do espaço tiveram como intuito a criação de habitats locais, conectando este espaço aos corredores verdes circundantes.
O FLOW demonstra o maior potencial do BNG: provar que o imobiliário não tem de ser necessariamente um passivo ecológico; tem que ser algo que acrescente valor e utilidade.